sábado, 3 de novembro de 2012
O futebol foi, em minha vida, algo tão útil como estranho. Um pouco à imagem de Tom Hanks em Forrest Gump, eu jogava titular, até cheguei a ser capitão de equipa numa época em que começamos as primeiras jornadas no último lugar mas acabamos no primeiro. Até fomos coroados com um artigo num jornal local e um patrocínio de uma marca de lâminas de barbear! Mas eu não estava lá. Não estava no mesmo filme, o filme que os meus colegas estavam a rodar. Daí, talvez, ter sido escolhido como capitão. Eu não sentia aquilo, por isso não me enervava, não discutia. Como é possível, não sei, mas sei que aconteceu. Eu vivia duas realidades ao mesmo tempo, o jogo e a situação na qual eu me encontrava. Como se, nesse momento, eu tivesse hipótese de estar sozinho comigo mesmo. Um espécie de tempo a sós com Deus mas sem Deus.
Fui ganhando destaque até que, para meu infortúnio, meu pai ouviu falar das minhas prestações desportivas, pelos seus amigos, no café, e quis passar a ser o meu mentor! A partir daí foi o sufoco; discussões com os meus treinadores, com os árbitros, com os meus colegas de equipa, com os pais dos meus colegas e comigo…Cada domingo de jogo era uma aventura que poderia terminar numa grande cena de pancadaria envolvendo, no meio do campo de futebol, todas as pessoas citadas há pouco.
O futebol foi, como é óbvio, perdendo seu brilho. Virei-me cada vez mais para a vida de rua, cada vez mais triste, cada vez mais revoltado contra tudo e contra todos. Tornei-me distante, "gozão", zombador, amargo e carente de um sentido para a vida que estava a ter tanta dificuldade em viver.
A melhor recordação futebolista dessa época foi um torneio de fim de ano desportivo, no sul de França. Ficamos lá uma semana hospedados na casa de pessoas envolvidas na vida do clube que organizava essa competição. Foi engraçado perceber que havia vidas bem diferentes das nossas. Essas pessoas tinham pronúncias estranhas, e hábitos bem invulgares. A senhora que me recebeu, logo pela manhã, Iniciou o pequeno-almoço com pão mergulhado em vinho numa prato de sopa, eu fiquei sem apetite, só de olhar para aquele ritual!
Não faço ideia de qual foi a nossa prestação nesse torneio mas sei que essa cultura, a cultura mediterrânica, me causou um profundo impacto. Falavam alto, riam-se bastante, conviviam. Parecia-me um filme, daqueles filmes de Bourvil, a preto e branco, que eu via desde pequenino. Quem sabe, cheirou-me a algo que, apesar de eu não conseguir entender nessa altura, representava a minha futura paixão por aquele que é para mim o cantinho do mundo mais maravilhoso da face da Terra, meu Sotavento, meu Algarve, meu querido Portugal.
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Anda aí ohhhhh homem da bola. ;-)
ResponderEliminar"Homem da bola" fica-me bem sim Senhor!
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