Cheguei a Escola Secundária, foi incrível. Casalinhos aos beijos no
recreio. Jovens fumando sem ninguém dizer nada. Entrava e saía do Escola quem
queria. Na minha ex-escola, nós não poderíamos fazer nada disso. Tínhamos os
números das salas pintados no chão e no fim do intervalo, tínhamos de ficar de
pé, em frente ao número, dois a dois, em silêncio. O professor chegava e com
voz serena dizia «podem avançar». Continuávamos dois a dois até a porta da
sala, parávamos frente á mesma, e o mesmo proferia com calma «podem entrar».
Entrávamos e ficávamos de pé ao lado do nosso lugar até ouvirmos a voz de ordem
que nos permitia sentar.
Quando entrei na primeira aula, foi quase como se tivesse entrado numa
cena dum filme americano. Havia alunos sentados em cima das mesas a conversar
uns com os outros. Outros lutavam, na brincadeira. O professor nem lá estava
ainda. Disseram-me que vinha aí o “VaVá”, aprendi mais tarde que era o nome que
davam a este professor por passar todo o seu tempo a tentar acalmar os alunos
de modo a que se concentrassem na matéria dizendo
« Va!…Va!…Va!».
Logo no primeiro dia, aproximou-se de mim um rapaz que se apresentou e
começou logo, sem que lhe pedisse, a apresentar-me aos seus amigos. Prometeu
que me iria ajudar a conhecer mais jovens dentro e fora da escola! Eu estava
perdido. Nunca iria conseguir decorar tantos nomes duma vez só. Nem as caras,
quanto mais os nomes…
Por ter tido que voltar um ano escolar trás(se não tivesse passado no
exame Ad-hoc, teriam sido dois!) tornei-me rapidamente um dos melhores alunos
da turno. Alguns dos meus colegas nunca compreenderam isso e acharam que eu era
naturalmente um bom aluno, o que não me dava muito jeito! Pois os “marrões“ era
gozados. O que me salvou, foi o facto, que muito rapidamente eu comecei a
revelar meu jeito para o futebol e entrei na categoria de “futebolista” e isso
já me conferia algum respeito por si só. Acabei por entrar no clube da cidade e
comecei a ser ainda mais amado ainda por alguns e evitado por outros como é
normal.
Eu era uma novidade, na altura, não era muito comum um “francês”
voltar. Percebi rapidamente porquê. A vida ainda não era muito fácil por estas
paragens. Mas era incrível a alegria e a “santa” loucura que alguns
vivenciavam.

Claro, não demorei muito a perceber que como qualquer cultura, esta
também tinha os seus pontos fracos. Neste caso, prometia-se muito, demasiado rápido
e esquecia-se mais rápido ainda. As amizades eram leves e por vezes efémeras. As
brincadeiras, pelo menos o tipo de brincadeiras que se usavam pela maioria, não
me satisfazia. Já tinha outras preocupações. Não era santo, mas estava preocupado.
Em casa, as coisas não estavam bem, o meu avô estava estranho. Minha
mãe chocava com a minha avó. Havia um mau estar geral. Eu não percebia porquê.
Se os meus avos gostavam tanto de nós, porque não estavam felizes por nos ter
com eles agora. Sempre ouvira dos meus pais que eles tinham dinheiro, por isso
essa não poderia ser a razão.
Minha mãe, um dia, aproximou-se de mim a chorar e contou-me que os
seus pais tinham vergonha dela porque ela abandonara o seu marido. E mais
ainda, eles lhe tinham dito que se ela o deixara, é porque ela não poderia ser
boa pessoa. Mais tarde percebi que a envolvência social tinha muito poder
ainda, nesta cultura. Eles estavam preocupados como o que os outros pesavam e
afirmavam. Mas a minha mãe foi mais além e afirmou o que eu não queria ouvir.
Teríamos de ir viver para o apartamento que era dos meus pais e sujeitar-nos a
que o meu pai aparecesse a qualquer momento e que recomeçasse tudo outra vez.
Não tardou muito, já não estávamos a viver com os meus avós…
Ainda me lembro do "VáVá".
ResponderEliminarPor vezes vejo-o aqui na baixa da cidade.
Abraço. Força aí na continuação da tua saga!
David