quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um campo de batalha

A turma era composta  de várias nacionalidades e naturalidades e como é claro, cada um tinha um grau de educação e formação bem diferente. Havia professores, um pedreiro, estudantes e até uns desempregados...
A lógica dos trabalhos práticos começou logo a chocar alguns de nós pois delegaram a liderança das equipas a quem tinha menos estudos ou era menos carismático. O que logo levantou protestos da parte dos que se consideravam mais adequados para a tarefa. Ainda me lembro de um engenheiro que barafustou contra esta lógica "improdutiva". Acabou varrendo folhas em cima da neve, revoltado com tamanha humilhação. Eu ria-me por dentro mas também haveria de chegar a minha vez de ser posto à prova.
Eram surpresas atrás de surpresas. O nosso director era  muito vivido e chegava para nós todos ao mesmo tempo. Era um grande gestor de projectos, de finanças e de pessoas. Esta linda casa plantada neste lindo país mas parecia, por vezes, um campo de batalha. Mas a maior batalha era travada dentro de nós. Tudo era concebido para moldar o nosso carácter, para aprendermos a obedecer deixando os "achismos" de lado e os nossos sonhos afim de que vencesse o trabalho em equipa em vista de um alvo comum.

Eu lutei bastante com uma coisa extremamente simples e que nenhum dos meus colegas conseguiu compreender ou que eu nunca fui capaz de explicar. Revoltava-me com a opinião deles de que a priori, eles tinham de estar logo mais certos do que nós, os latinos, porque os seus países demonstravam essa verdade pela sua situação de riqueza a todos os níveis.  Ele achavam estranho a minha atitude e alguns até manifestavam o seu espanto visto que nunca tinham conhecido, até a data, um português que discordasse ou que não fosse super simpático e obediente. Só o facto de eu discordar irritava-os. Acabei por deixar de dar as minhas opiniões e optar pela hipocrisia do "está tudo bem!" como eles tanto gostavam.
O meu primeiro grande desgosto ia no sentido de me aperceber de que as origens e as classes sociais tinham tanta importância no corpo de Cristo, a Igreja. Lá no meu grupinho de jovens, no Algarve, nós éramos todos iguais mas parecia que isso, afinal, não era bem assim...
A justiça de um homem, o nosso director, norteava a minha vida na escola. Como é possível existirem pessoas que, por amor a Cristo, se sujeitam a este desafio que é fazer discípulos até mesmo com pessoas tão tortas como eu era e sou!

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