sábado, 20 de outubro de 2012

Felizmente, eu não cheguei a ser todo enrolado. O meu professor de matemática, que tinha sido um grande atleta, tanto pelos seus resultados como pela sua grande estrutura, chegou no exacto momento para me salvar deste calvário inglório. Foi um momento muito especial. Percebi que nem sempre a bravura nos conduz a bom porto e que os heróis podem muito facilmente acabar mortos... Voltei para casa, para o meu monótono combate pela sobrevivência...Há muita coisa que não vale a pena contar porque poderia parecer mentira ou exagero e enfim... Um dia encontrei a minha mãe a dormir. Ainda hoje, não percebo se acreditei mesmo que ela estivesse a dormir. Felizmente a minha irmã não encarou a situação da mesma forma e pediu ajuda. Comprovou-se que a minha mãe tinha tentado pôr fim a sua vida nessa tarde. Foi o fim do romantismo, na minha vida. Percebi que as coisas podem sempre se agravar. Que não havia limites para a decadência humana. Que o ser humano realmente pode estragar a sua vida se assim o entender tanto como a vida que de si está dependente, isto fez toda a diferença! Mais tarde, quando a minha mãe já restabelecida me afirmou que, por ela, ficava com o meu pai mas se eu achasse que era melhor fugirmos, ela iria aceitar e voltaríamos para Portugal. Não hesitei em responder que se eu ficasse, poderia acontecer mais tragédia. Já tinha 15 anos, o corpo e a mente preparados para a luta, pelas minhas circunstâncias, pelo futebol, pelo bairro e pelo contexto escolar em que eu me movia. Fizemos uma experiência. Fomos passar férias, no Natal, na "nossa" cidade (cidade dos meus pais). Achei tudo fantástico. A luz do dia. O aspecto bronzeado das raparigas. A descontracção das pessoas. O facto de ninguém achar que eu era escuro demais. Ver a minha mãe feliz mesmo que muito infeliz. O carinho de um povo “inferior” que me fazia sentir “superior”. É claro que essa é sempre a sensação do turista que vai para um país que passa por situações mais complicadas que o seu, mas enfim, foi o que eu vivi.
Voltamos para França cheios de saudades da nossa cidade cinzenta mas com a firme convicção que bastaria só mais um momento de desrespeito para tomarmos mais uma daquelas decisões que alteram drasticamente o nosso quotidiano!

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