sábado, 13 de outubro de 2012
Houve uma grande decisão tomada por meus pais que mudou radicalmente a minha vida. Passei a estudar numa escola secundária que ficava muito longe de casa porque era a única que oferecia o Português, como segunda língua.
Os meus pais falavam sempre em francês connosco para não prejudicar nossa integração na sociedade francesa mas não queriam que perdêssemos a sua cultura de vez. Não pensavam regressar definitivamente para Portugal. Meu pai trabalhava por conta própria. Tínhamos uma vida desafogada financeiramente. Num só ano meus pais chegaram a comprar um apartamento, uma carrinha nova e um barco! Além disso, o meu pai não perdoava sua pátria de o ter mandado para a guerra, por isso, era bastante improvável que regressássemos a este país que era para mim pouco mais do que o sítio onde vivia uma parte da minha família e o lugar de lazer onde nós podíamos desfrutar da praia e do sol.
Eu tinha de apanhar três autocarros para chegar a minha escola. Era a parte mais interessante do dia. Via muitas pessoas. Apreciava muitas raparigas bonitas. Desenvolvi minha arte de palhacinho para atrair as atenções das pessoas à minha volta e alegrar o meu dia na esperança de esquecer, por momentos a dura realidade de regressar à casa e voltar a ter medo, medo de ver meus pais discutindo, medo de encontrar minha mãe surrada, desanimada ou inanimada...
Minha escola secundária era bem sui generis. Consistia num grande conjunto de edifícios plantados perto de um bairro social. Esse bairro era principalmente ocupado por pessoas de origem árabe. Esses passaram a ser minha segunda dor de cabeça depois dos meus pais. Todos os dias alguém nos pedia algo, nos ameaçava, nos tentava agredir. O meu desafio diário passou a ser sobreviver. Eu tinha medo mas não demonstrava, enfrentava-os, queria provar que era um português durão, diferente da maioria e que não iria dobrar-me perante as ameaças deles e aguentei...tanto que um dia, alguém não aguentou, por mim e por nós e atuou, reuniu provas, testemunhas, falou com o director, com advogados e avançou.
Lembro-me de certo dia ter descoberto quem me tinha roubado a minha linda e nova camisola, recém oferecida por minha mãe. Fui ter com o rapaz e ameacei espancá-lo e ele devolveu-me a camisola. Foi muito bom gabar-me durante o dia e tecer teses sobre como deveríamos tratar esse tipo de pessoas.
O problema foi ao sair da escola. Vi um grupo de mais ou menos oito a dez pessoas reunidas à porta mas nunca pensei que fosse um comité de boas-vindas. Mandaram um jovem insultar-me, percebi que o objectivo era que eu começasse a escaramuça para que pudessem reivindicar legítima defesa. Eu bem vi o arame farpado, no chão, que era utilizado para uma tortura bem conhecida na zona. As pessoas eram enroladas com esse arame, deitadas no chão e empurradas de forma a rebolarem até ficarem completamente ensanguentadas.
Bastava-me ignorá-lo e seguir o meu caminho para evitar mais complicações, mas devido ao meu tal código de honra, eu tive de avançar, porque um dos diversos insultos que me foi dirigido fazia referência a minha mãe.
Dirigi-me ao rapaz, levantei a minha mão para lhe bater e… Não tardou nada, eu estava a ser enrolado…
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