sábado, 17 de novembro de 2012
Mais uma noite daquelas...violência psicológica e física, choro e insultos voltaram a acontecer. Mas desta vez, foi diferente. Eu levantei a voz e fiz um ultimato. Avisei o meu pai que, ou ela mudava ou ele iria nos perder a todos! Ele fica espantado e ameaçou de novo pois não acreditava que eu, sendo um rapaz “falhado” a olhos dele, teria a coragem de lhe fazer frente. Enganou-se. A paciência dos fracos também tem limites. O medo dá lugar a ousadia. Por vezes dá lugar mesmo a loucura e eu para lá caminhava. Pensamentos horríveis ocupavam meu mundo interior. Tinha pressa de ir embora porque amava o meu pai, não lhe queria fazer mal algum mas também não podia arriscar a vida da minha mãe.
Mais tarde, a minha mãe começou a contactar os primos do meu pai e todos juntos, organizaram uma estratégia de fuga. Fugimos pela cave. Um dos nossos primos estava lá a nossa espera com o seu carro. Dormimos na casa de outro primo. No dia a seguir, mudamos de cidade para a casa de outro familiar e dormimos lá outra noite. Já tínhamos viagem marcada, de autocarro, a partir daí.
As horas não passavam, tínhamos medo de ser encontrados. Meus primos estavam tensos. Minha mãe em pânico. Eu tomei, interiormente, o papel de salvador. Não que isso me tivesse sido pedido ou que isso tivesse sido reconhecido em mim por alguém. Mas lá estava eu, a tentar mostrar que estava calmo. Não chorava, não comentava, apenas aguentava tudo lá dentro de mim.
A viagem de autocarro foi divertida. As pessoas, no geral, voltavam para os seus familiares. As saudades eram muitos mas a proximidade do reencontro instalava entre eles um ambiente de êxtase, expectativa e animação quase constante. Uns contavam anedotas, outros cantavam, outros jogavam às cartas, outros contavam histórias sobre a família, a guerra, a ditadura, o fim da mesma e sobre o futuro de Portugal como país Europeu. Eu estava conquistado, contagiado e motivado. Mas nenhuma dessas pessoas iria lá ficar. Era muito cedo. Muito verde. Ainda não tinham ganho o suficiente. Nós então voltávamos sem nada. Ouvia de vez em quando chamarem-nos de “coitadinhos” mas eu tinha pena era da minha mãe. Ela estava a dar a cara sozinha com dois filhos e voltava sem marido, algo que, naquela altura era inaceitável fosse qual fosse a razão dessa mesma separação.
Chegamos a Capital do Algarve. Era linda. Tanta luz. Palmeiras, a Ria Formosa, os barcos, as pessoas andando à pressa de um lado para o outro. Tinham passado vinte e dois anos desde o fim da ditadura e isso sentia-se nas ruas. As pessoas se sentiam livres, alegres e motivadas para viver sem limites.
O meu avô nos veio “buscar”, sim “buscar” porque nós éramos três e ele vinha de motorizada. Daquelas motorizadas que eu achava estranhas, pois pareciam motas mas andavam devagar, e se o meu avô andava devagar! Mas o pior ainda era o som delas. Algumas delas, como a V5 por exemplo, estavam especialmente preparadas para pôr à prova os ouvidos de qualquer santo.
Eu fui de mota com o meu avô. A minha mãe e a minha irmã foram de autocarro. Durante todo o caminho eu delirava com o que via. Imagine-se o que era poder viver todo ano no local onde, normalmente, apenas se podia viver no máximo um mês de férias. Era um pouco como ganhar a “sorte grande”.
Tudo era exótico para mim. Estava iniciada minha lua-de-mel. Brevemente iria voltar a pousar os pés na terra e perceber o que realmente passaria a ser a minha vida neste meu novo espaço ao qual eu iria passar a chamar “casa”.
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Fantastico
ResponderEliminarAdorei
E esta foto é tão nostálgica
És grande, amigo.
Flip
Força amigo, continua, que isto promete.... hehehehehehehe
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